Núcleo Gerador: Argumentação e Assertividade

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Argumentar é algo que fazemos constantemente: sempre que defendemos um ponto de vista, uma ideia, uma vontade. O objectivo da argumentação é convencer, persuadir, isto é, fazer os outros mudar de opinião aceitando as nossas razões/argumentos.
Devemos reflectir sobre a forma como o fazemos no nosso dia-a-dia. Somos persuasivos quando se trata de assuntos pessoais? E profissionalmente, temos capacidade assertiva? Ou pelo contrário, usamos mais a agressividade e a violência em vez da força dos argumentos?

Estrutura do discurso argumentativo
Apresentar o tema, formular o problema, enunciar a tese que se vai defender, escolher argumentos e decidir sobre a ordem da sua apresentação, imaginar objecções à tese e encontrar o estilo apropriado são passos do discurso argumentativo que não podem ser negligenciados.

Exemplo de um texto argumentativo:

“Devem as pessoas relativamente abastadas ajudar os pobres?

O fosso entre ricos e pobres nunca foi tão grande como nos nossos dias. Enquanto alguns têm mais dinheiro do que o que podem gastar em toda a vida, não importa quão esbanjadoras sejam as suas compras, outras não conseguem prover nem mesmo às necessidades mais básicas. Em todos os continentes do mundo, pessoas morrem de fome por falta de alimento, enregelam até à morte por falta de abrigo, morrem de doenças que podiam ser tratadas. É caso para perguntar se as pessoas abastadas do mundo têm obrigação moral de ajudar os pobres. Defenderei que as pessoas relativamente abastadas deveriam oferecer uma percentagem dos seus ganhos para ajudar a reduzir a pobreza absoluta a uma escala global.

A minha pretensão é que aqueles que são relativamente abastados, isto é, as pessoas que normalmente poderiam ser definidas como ricas ou opulentas no contexto de uma dada sociedade, têm a obrigação de prescindir de uma pequena, mas preciosa, percentagem dos seus ganhos. Peter Singer, um filósofo australiano, sugere 10 por cento. O dinheiro seria utilizado para aliviar a pobreza absoluta, condição que Robert McNamara, ex-presidente do Banco Mundial, define como «caracterizada por má nutrição, iliteracia, doença, alojamento miserável, alta taxa de mortalidade infantil e baixa esperança de vida, que está aquém de qualquer definição razoável de decência humana».

Muitos argumentam que as pessoas abastadas não deviam ajudar os mais necessitados, a menos que essa fosse a sua opção. O argumento mais forte em defesa desta posição foi articulado por Garrett Hardin, um ecologista da Universidade da Califórnia do Sul. Ele chama a atenção para as consequências nocivas de ajudar as pessoas, afirmando que, ao contribuírem para o aumento dos níveis de sobrevivência daqueles que, de outro modo, teriam uma relativamente baixa expectativa de vida, as pessoas mais abastadas contribuiriam para o aumento da população e desse modo para o acréscimo do nível de consumo dos recursos naturais e para o surgimento de problemas ambientais. Embora a miséria seja uma coisa má, Hardin diz que ajudar os pobres conduzirá a um mal maior – a um número crescente de pessoas que morrem de fome e a menos recursos para as ajudar. Outros argumentam que só porque as pessoas abastadas têm um rendimento relativamente mais elevado do que outros, não se segue que elas sejam moralmente responsáveis por aqueles que não têm.

Em sentido contrário, eu acredito que as pessoas têm a obrigação moral de ajudar os desesperadamente pobres. Por razões várias não e segue obrigatoriamente que ajudar os pobres aumente necessariamente a população e por esse meio a degradação ambiental. Primeiro, ainda que a ajuda monetária possa trazer apoios médicos e alimentos e assim aumentar a população, pode trazer também contraceptivos e educação acrescida acerca do controlo da população. Desse modo, ajudar os pobres poderia realmente diminuir a taxa de crescimento da população e, no longo curso, poupar recursos ambientais. Em segundo lugar, ajudar a reduzir a pobreza absoluta também poderia colocar mais pessoas em posição económica, social e médica de contribuir para resolver problemas ambientais e ajudar a resolver de sobrepopulação. Por último, de um ponto de vista puramente prático, é importante notar que as pessoas são um recurso económico pelo menos tão importante como a floresta e o solo fértil, e permitir que adoeçam e morram é desbaratar e desperdiçar esse recurso.

A obrigação de ajudar os pobres é, até certo ponto, uma simples questão de direitos humanos. Acreditamos que os nossos animais de estimação têm direito a um tratamento decente – comida suficiente para viver, abrigo do frio, cuidados médicos quando se magoam ou estão doentes, e pessoas abastadas na América despendem largas somas de dinheiro para satisfazer estas necessidades básicas dos animais. Se os animais têm estes direitos, então seguramente os humanos têm pelo menos os mesmos direitos básicos. As pessoas devem ser tratadas com mais respeito e consideração do que os animais, dando-lhes a possibilidade de viverem em melhores condições do que as são concedidas aos animais.

Contudo, a principal razão pela qual as pessoas abastadas têm a obrigação de ajudar os pobres tem a ver com o princípio moral de que é errado matar outro ser humano. Se é errado matar outra pessoa, então é moralmente errado permitirmos que alguém morra, quando sabemos que é isso que vai acontecer, e quando está ao nosso alcance salvar as suas vidas com um custo relativamente pequeno. Por não agirem para reduzir o efeito letal e maléfico da pobreza no mundo pobre, os abastados estão a violar um princípio moral fundamental. Consequentemente, ajudar o pobre é obrigação moral do rico.

Concluindo, as pessoas abastadas devem dispensar uma percentagem da sua riqueza para ajudar a erradicar o problema da pobreza absoluta do mundo, não apenas porque as pessoas são seres vivos com direito a vidas decentes, mas porque é errado permitir que morram quando ajudá-las a viver está ao nosso alcance.

Katheleen Moore, in Lewis Vaughn, Writing Philosophy

Síntese:

1) Introduz-se o tema enfatizando a urgência da questão e fornecendo indícios que permitem contextualizar a tese que se vai defender.
2)Clarificam-se os termos que se vão utilizar ao longo do discurso e citam-se autoridades na matéria.

3) Consideram-se duas possíveis objecções à tese e respectivos argumentos

4) Apresentam-se três contra-argumentos para responder a uma das objecções atrás exposta

5) Apresenta-se o primeiro argumento em defesa da tese

6) Apresenta-se o segundo argumento em defesa da tese; neste caso, o argumento mais forte.
7) Conclui-se, reformulando a tese e reconstruindo a argumentação.