famila-globalizacao A Tolerância face à diferença

Devido à imigração é possível num país, ou mesmo, numa cidade, a existência de diversos núcleos culturais. Perante a existência de seres humanos com normas e hábitos culturais diferentes, as pessoas podem assumir atitudes e condutas muito variadas.

Perceber qual a postura que cada um de nós toma perante a diversidade de pontos de vista, de valores, de ideologias e de tradições culturais é o objectivo do núcleo gerador Abertura Moral.

Dada a dificuldade evidenciada por algumas pessoas em caracterizar/definir as suas atitudes perante culturas diferentes, apresentam-se abaixo as perspectivas mais comuns face à diversidade cultural. 

Problematiza-se também a questão da tolerância, a qual pode ser  analisada à luz dos valores das novas gerações e das minorias e não apenas face a diferenças culturais.

 

A Diversidade Cultural

 

A Cultura é: “Um todo complexo que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, as leis, os costumes e todas as outras disposições e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade.”  (E.B.Tylor)

 

Atitudes face à Diversidade Cultural

  • Etnocentrismo

As pessoas que observam as outras culturas em função da sua própria cultura, tomando-a como referência para avaliar e hierarquizar as outras tomam uma atitude etnocêntrica. Isto é, consideram a sua cultura como modelo para as outras, não conseguindo avaliar de uma forma crítica e imparcial os seus valores culturais. Desenvolvem um sentimento de superioridade em relação aos elementos das culturas estrangeiras/diferentes com que têm de coexistir. Manifestando incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas. O etnocêntrico revela-se incapaz de aceitar os que não adoptam modos de vida semelhantes aos seus.

Para preservar as características da sua cultura o etnocentrismo pode assumir as seguintes atitudes:

            – Xenofobia: ódio em relação aos estrangeiros.

            – Racismo: repúdio de determinados grupos étnicos.

            – Chauvinismo: patriotismo fanático.

 

  • Relativismo Cultural

Os defensores do relativismo cultural perspectivam os valores das outras culturas a partir dos seus próprios valores e não dos valores das culturas em causa. No entanto, ao contrário do etnocentrismo defende a tolerância face às diferentes expressões culturais das outras comunidades.

Proclamar a tolerância pode, contudo, significar que cada cultura deve promover os seus próprios valores fechando-se em si própria. E por outro lado, não incentivando a abertura às outras culturas dificultam o diálogo intercultural e o seu potencial desenvolvimento.

Neste sentido os relativistas poderão defender assumir as seguintes atitudes:

 – Racismo: embora proponham o respeito por todos os povos, pelos seus valores e modos de vida, os relativistas pretendem preservar a sua própria cultura e nesse sentido podem afastar os outros não se misturando.

– Isolamento: apesar de defender a tolerância, o relativismo promove a separação entre culturas e consequentemente acaba por justificar a proibição da entrada de imigrantes nos seus países.

– Estagnação: o relativismo tem uma visão estática das culturas, considerando que o importante é manter as tradições.

 

  •   Interculturalismo

Aqueles que defendem este movimento têm como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, defendendo o encontro em pé de igualdade entre todas elas. Partindo do pressuposto que nenhuma cultura atingiu a perfeição, consideram que o diálogo entre povos de diferentes culturas possibilita o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto.

Os objectivos do Interculturalismo são:

            – Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo;

            – Promover o diálogo entre culturas;

           – Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos social, ético, político, económico e ecológico.

 

Assim, enquanto o etnocentrismo leva a uma homogeneidade cultural, defendendo a existência de uma cultura correcta que deveria ser oficialmente imposta e o relativismo cultural proclama uma pseudo tolerância (pseudo porque pode levar à aceitação de culturas intolerantes), o interculturalismo promove a convivência com culturas diferentes fomentando o desenvolvimento da humanidade.

A diversidade cultural não implica que as diferentes culturas se devam combater ou isolar e não comunicar entre si; bem pelo contrário, o diálogo é imprescindível se queremos desenvolver uma civilização verdadeiramente humana. No entanto, reconhecer às várias culturas existentes o direito à diferença não significa aceitar passivamente toda e qualquer tradição, costume ou princípio que pretendam impor em nome, precisamente, dessa diversidade cultural. Há costumes e princípios que colidem com o nosso sentido da dignidade humana, que atropelam as nossas leis e como tal não os devemos aceitar.

AFL

TOLERÂNCIA

Tolerância é uma palavra que está na ordem do dia. Designa um comportamento e um valor a que se atribui grande importância. Em termos gerais, entende-se por tolerância a aceitação, respeito e consideração pela diferença, ou seja, a capacidade e a disposição para admitir nos outros maneiras de pensar e de agir diferentes das nossas e das quais podemos discordar. Vivemos enquanto portugueses e membros da civilização ocidental, numa sociedade que se considera democrática, liberal e pluralista. As sociedades pluralistas, também ditas abertas, são as que permitem a existência e manifestação de diferentes pontos de vista sobre assuntos morais, religiosos e políticos. Valorizam a livre discussão de ideias, o espírito crítico, a pluralidade de opiniões. Não devemos, contudo, pensar que este espírito crítico de abertura e de respeito pela diversidade significa que nada é proibido e que tudo é permitido. Tolerância não deve ser sinónimo de permissividade e de indiferença.

Deve tolerar-se a escravatura? E se há pessoas que apelam à sua liberdade para ter escravos e inclusive também pessoas dispostas a aceitar ser escravos? Deve tolerar-se a tortura? E o que deve dizer-se a quem alegue a sua – suposta – eficácia relativamente à política? E a quem sustente que nas suas convicções pessoais se trata de um método perfeitamente legítimo na sua guerra sem quartel contra a delinquência? Devem as leis tolerar a poligamia? E se há pessoas – maridos e mulheres – que apelam à sua liberdade para que se lhes permita formar esse género de união? (…)

Tal como é evidente que não se pode permitir tudo, a promoção da tolerância não implica tolerar tudo. A tolerância absoluta ou pura seria igual a niilismo (vale tudo, logo nada tem realmente valor), a ausência de firmeza e de princípios morais. Parece óbvio que a tolerância cega e ilimitada lançaria as sociedades humanas no caos e na anarquia. Assim, várias questões surgem inevitavelmente: “Até onde tolerar? Quais os limites da tolerância? O que é intocável?” Outras questões intimamente ligadas a estas tornam ainda mais complexo o problema da tolerância. Ei-las: “por que razão não toleramos certas atitudes e comportamentos? Em nome de quê o fazemos? Ao pôr limites à tolerância, o que pretendemos preservar e proteger?”

Alfonso Alguilá, “Por uma verdadeira cultura da tolerância”, http://www.portaldafamília.org (texto adaptado)