LUZ

A capacidade prospectiva em relação ao ambiente deixou de ser apenas importante para passar a ser absolutamente imperiosa. Em geral temos uma relação um pouco ambígua com o ambiente, se por um lado, defendemos a necessidade de se alterarem comportamentos para o protegerem, por outro limitamo-nos a fazer apenas a separação do lixo. Esse é, com certeza um comportamento correcto, mas é apenas um primeiro passo  que indicia responsabilidade ecológica. Temos de pensar em termos futuros.

Deixo aqui um texto de um adulto em Processo RVCC que, considero, conseguiu evidenciar, de forma clara, desde criança uma preocupação autêntica com  o planeta terra. Tendo também evidenciado comportamentos coerentes com essa mesma preocupação e revelado capacidade prospectiva.

Ressalvo que o português do Brasil do texto que se segue se deve ao facto do seu autor, Danilo Aguiar,  ser um cidadão brasileiro.

«(…) Nessa mesma época a escola promoveu uma campanha contra a construção de uma Usina Hidréletrica, pois, essa Usina seria construída em um dos cartões postal de Muniz Freire, a Cachoeira do Rio Pardo ou também conhecida como Cachoeira das Sete Quedas, porque literalmente se podia contar as sete quedas de água que ela tinha, que jorravam com muito vigor queda após queda. Fica situada a cerca de 8 km do centro da cidade, na estrada que liga Muniz Freire a Iúna.

         Fui várias vezes na Cachoeira com meus pais, passávamos o dia lá em família, minha mãe preparava o lanche para levarmos. Era muito bonita e sempre com muitos turistas. Tinha os locais adequados para os banhistas, a área com segurança para os turistas que queriam chegar mais próximo das águas.

         A maior preocupação da escola era com a proteção da água e com o impacto na fauna e flora da região, sabia que haveria um grande impacto. A utilização da água na usina, desencadearia vários problemas, como a mudança do curso no Rio Norte, afetaria a reprodução e sobrevivência dos peixes, a alimentação de animais e aves que sobrevivem se alimentando de peixes, a poluição do Rio Norte. A campanha envolveu toda cidade e nós alunos fizemos o que estava ao nosso alcance, lutamos pelo bem da natureza.

         Mas, os políticos municipais não quiseram saber dos possíveis impactos ambientais e autorizaram a construção da Usina Hidrelétrica para a grande empresa de mineração Samarco. O interesse pessoal e político falou mais alto que a manifestação dos estudantes e moradores da cidade. Eles logo começaram a construir, no início gerou alguns empregos para pessoas da cidade, mas, assim que ficou concluída poucas pessoas do município ficaram empregadas na Usina.

         A Hidrelétrica está funcionando e tem potência de 25 megawatts e tem capacidade para 118 mil megawatts/hora por ano, o que equivale a 25% da energia consumida na planta de pelotização de Ubu. Burocraticamente falando, a empresa hoje possui o certificado ISO 14001 (meio ambiente) e o certificado de conformidade com a norma OHSAS 18001, de segurança e saúde do trabalho. O que não deixa de gerar certo desconforto e dúvida nos moradores da cidade, pois, o fluxo de água no Rio Norte diminuiu significantemente, os pescadores reclamam muito da escassez dos peixes e não se encontram tantos animais e aves como se encontrava antes da construção da Usina. Sem dizer que a beleza encantadora da Sete Quedas desapareceu, pois, hoje desce uma água fraquinha que não levanta aquela neblina, que o impacto da água com a pedra, provocavam.

         A preocupação dos manifestantes em relação à água era claro, pois desde muitos anos, estudos e pesquisas vêm revelando dados assustadores. A água potável é um bem essencial na vida e está cada vez mais escassa. São vários os fatores que estão provocando essa escassez, e infelizmente o homem é o principal causador desse desastre. O que é totalmente contra a sua própria natureza, pois nosso corpo é formado por cerca de 70% de água e os recém-nascidos chegam a ter cerca de 90% de água, ou seja, a água é primordial na vida humana e o homem está dando cabo dela, que ingratidão. Todo ser que tem vida precisa de água para sobreviver, as plantas, os animais e muitos outros.

         São muitas as manifestações, campanhas e órgãos que tentam ajudar na luta pela preservação e economia da água. Tentam conscientizar as pessoas para aprenderem ou respeitarem a preservação da água. Os meios de comunicações sociais ou os mass média tem sido um grande aliado nessa campanha em favor da preservação da água. Mas, infelizmente muitas pessoas não se preocupam nem se importam com essa situação, pois ainda não sofreram na própria pele a falta que a água lhe faz. Continuam desperdiçando água como se nada fosse. Nunca imaginaram que pode vir a faltar aquele líquido que é usado para matar a sede, cozinhar os alimentos, tomar banho, preparar várias bebidas e medicamentos, e muitas outras finalidades que a água tem. Para se ter uma idéia da importância da água, o ser humano pode ficar até 28 dias sem comer mas não resiste a mais de 3 dias sem ingerir água. Talvez as notícias e imagens de que milhões de pessoas morrem por ano pela falta de água potável, não sensibilizam as pessoas que continuam desperdiçando a água. É um drama vivido em vários países no mundo inteiro.

         O homem está desperdiçando desenfreadamente a água de várias formas, e isso tem causado um impacto enorme na própria vida do ser humano e no meio ambiente também. A água tem sido desperdiçada nas casas, nas ruas, nas empresas, nos estádios, nos jardins e em outras situações. Temos vários exemplos de desperdício de água, como: deixar o chuveiro aberto enquanto se toma banho, deixar a torneira aberta enquanto se escova os dentes, fazer a barba com a torneira aberta, deixar a torneira aberta enquanto se esfrega as vasilhas, deixar as torneiras pingando, lavar calçadas sem necessidade, lavar a rua, lavar o carro com mangueira, regar jardins e campos com temperatura ambiente alta o que gera perda por causa da evaporação, boca-de-incêndio jorrando água sem necessidade, vazamentos em rede de distribuição e infelizmente temos muitos outros exemplos de desperdício.

         Para se ter uma noção de que simples desperdícios tornam-se grandes perdas, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH), um gotejamento de uma torneira desperdiça 46 litros de água por dia, ou 1380 litros por mês. Um filete de 2 milímetros de água escorrendo totaliza 4140 litros de água desperdiçada em um mês. Escovar os dentes com a torneira aberta são 3 litros de água desperdiçada. Um banho de 10 minutos com a torneira aberta, equivalem a 10 litros de água.

         Além dos desperdícios temos também a poluição da água, um fator que tem contaminado a água e colocado em risco a vida de muitas pessoas. (…). As várias formas de poluição da água causam vários tipos de doenças, como:

 – Poluição por esgotos: provocam doenças como febre tifóide, cólera, disenteria, meningite e hepatites A e B;

 –  Poluição por mosquitos: o paludismo, a dengue, a malária, a doença do sono e a febre amarela;

 –  Poluição por parasitas: verminoses;

 – Poluição por rejeitos industriais: os metais pesados despejados causam tumores hepáticos e de tiróides, alterações neurológicas, rinites alérgicas, disfunções gastrointestinais, pulmonares e hepáticas. A contaminação por mercúrio pode causar anúria e diarréia sanguinolenta.

         O mundo tem muita água, mas, a maior parte (cerca de 97%) desta água está no mar e é salgada, o que a torna imprópria para o consumo agrícola e industrial. A água do mar precisa passar por um processo de dessalinização, existem algumas técnicas mais aplicadas no processo de dessalinização, no Brasil a técnica mais privilegiada é a que utiliza a separação por membranas, denominada osmose inversa, onde uma membrana semipermeável age como um filtro e separa o sal da água. Passando por este processo a água torna-se utilizável em várias situações a nível pessoal e industrial, o que pouparia a água doce natural. Porém, enquanto em alguns países esse processo é um sucesso, no Brasil por exemplo, sua utilização em grande escala fica comprometida pelo custo elevado e a necessidade de importação das máquinas e dos materiais utilizados no processo. É necessário um maior investimento por parte dos governantes e empresários para que esse processo de dessalinização seja cada vez mais utilizado. (…).»

 

Excerto do PRA de Danilo Aguiar

(O texto sofreu alguns cortes  para melhor se adaptar a este espaço de leitura).