SOBRE TOLERÂNCIA

“Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes”

Aprendi de Josemaria Escrivá:
“Os santos não são seres disformes, objecto de estudo de um qualquer médico modernista. São seres de carne e osso como nós e venceram”.
E aprendi de Agostinho da Silva:
“Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga, ficar com a convicção de que anda vestida de raios de raios de sol.”
E agora, que faço eu?
Se sou candidata a santa, ouço o Escrivá, mas aí é que reside o problema, porque eu sou candidata sim, mas também não posso estar mais de acordo com o mestre Agostinho. E agora?
Bom, tudo isto para falar de tolerância.
Apetece-me ser tolerante, mas nem sempre me é de todo possível. Eu penso que talvez a palavra, só por si é medonha, como diz Agostinho.
E porque hei-de ser tolerante com todas as coisas?
E não é que eu tolero muitas coisas!
Porém, com a minha dificuldade de tolerar outras, comecei a pensar na proposta de Escrivá e achava-me no caminho certo para ser sua discípula, eis senão quando, um belo dia de sexta-feira (como eu gosto da sexta-feira!) depois de um dia de trabalho intenso e complicado, estaciono o meu carro em frente ao salão de cabeleireiro que frequento e inadvertidamente (verdade de uma candidata a santa) olho para dois jovens rapazes, que me pareceram estudantes de arquitectura, porque carregavam uns tubos que me eram muito familiares. Uma das minhas filhas também os carregou durante anos e vejo-os de mão dada.
Assumi ser tolerante e indiferente àquela “minha primeira vez” (para tudo há uma primeira vez) e pensei: Ora, se forem felizes… Nem é nada comigo…
Puro engano, afinal também era comigo!
Um deles voltou-se para mim e perguntou: – Oh “cota”, não dizes nada?!
Bem que eu até gostava de deixar de ser tolerante, mas lembrei-me do outro mestre, o Escrivá e renunciei o Agostinho.
Isto não é ser tolerante? Eu nem respondi…
Se gostei de ser tolerante? Não gostei nada, mas será que vou ter sempre força e renunciar a um mestre como Agostinho da Silva?
Estou (quase) certa que não. Contudo, apetece-me dar razão a este sábio e pensador, que tem a figura física mais parecida com o meu pai, mais que os seus próprios irmãos.

Helena – RVCC, grupo 11