Fast-food, inimigo a abater?

Com um património gastronómico tão rico e variado, como permitimos ser “subjugados” pela cultura da “comida de pacote”?

Compulsivamente “rendidos” ao processo da globalização, aceitamo-lo de uma forma cega, que desrespeita, entre outras, uma das nossas maiores riquezas: a gastronomia. Convido-os a fazer uma pesquisa literária sobre a cozinha tradicional portuguesa, do Minho ao Algarve e, se possível, experimentá-la.
Num país tão pequeno como o nosso, é impressionante constatar como variam os ingredientes e processos de confecção em cada província.

Além da riqueza de aromas, de sabores e de cores que os portugueses souberam trazer de outros mundos, a cozinha portuguesa incorporou muito da cozinha mediterrânica que ainda continua a ser considerada no meio científico como a mais saudável do mundo. Tal facto fica a dever-se quer à variedade de grupos de alimentos que compõem os pratos – carne, aves, pescado ou ovos, pão, massas, arroz, leguminosas ou outros farináceos, produtos hortícolas de todas as cores, riquíssimos em antioxidantes e importantes armas na prevenção do cancro – quer à utilização sistemática do azeite, gordura de excelência na nossa gastronomia e sobejamente afamada pelas suas propriedades nutritivas.

Com um património gastronómico tão rico e variado, como permitimos ser “subjugados” pela cultura da “comida de pacote”? Curiosamente, defendemos com unhas e dentes a nossa bandeira quando o tema é futebol, e no entanto vendemo-nos alienadamente à fast-food importada de países onde, comprovadamente, a obesidade e a falta de saúde a ela associada aumentam assustadoramente.
Apesar de se atribuir à fast-food o significado de junk-food, uma coisa não implica necessariamente a outra. Comer rápido não significa comer “lixo”. É verdade que muita da comida rápida se serve em pacotes, e é geralmente cheia de gordura, açúcar ou sal e muito pobre noutros nutrientes indispensáveis a uma vida com qualidade. Mas comer rápido prende-se, sobretudo, com o tempo que se gasta a cozinhar uma refeição. Que cada vez é menos porque a vida não o permite. Não podemos também permitir que essa falta de tempo nos roube saúde e anos de vida.

Precisamos de reaprender a cozinhar e a comer. Precisamos de olhar para a culinária portuguesa e dela extrair a fast-food (receitas rápidas). Precisamos de olhar para a comida rápida que se vende nos centros comerciais e distinguir o que de facto é, simultaneamente, bom e saudável. Precisamos que as escolas forneçam comida boa aos nossos alunos. Pode não ser comida de “faca e garfo”. Tem que ser boa. Boa em sabor e boa em qualidade. E muitas vezes, uma sopa e uma sanduíche bem combinada podem ser a solução!

Paula Veloso  –  2010-05-12