Cidadania é Cultura

 

“O ferro afia-se com ferro; os homens aperfeiçoam-se no confronto uns com os outros.”

 (Livro dos Provérbios 27 – Salomão – 5.562)

 

O texto continua a ser um meio privilegiado para a transmissão de valores,  de conhecimentos, perspectivas e olhares que nos fazem pensar, nos põem a reflectir, que nos ajudam a compreender melhor os outros, que, em síntese, nos permitem saber cada vez mais do ser humano, dos seus aspectos positivos e dos seus aspectos negativos. Neste sentido, qualquer situação que valorize a leitura, a reflexão e a escrita deverá ser optimizada para  a promover a cultura e consequentemente a pessoa.

Ler deve ser entendido não como uma obrigação, mas como um prazer, o prazer de desocultar o sentido das palavras e do paradigma que subjaz àquele texto. Ler é encontrar os sentidos que se procuram esconder, os dizeres que não estão à superficie mas que são os seus elementos estruturantes. Debater o que se lê é partilhar com os outros os nossos  olhares, é poder encontrar novos sentidos é dar vida àquilo que nos fez vibrar, é sentir o entusiasmo de uma descoberta que muitas vezes vai imprimir o sentido a tudo aquilo que pensavamos mas não conseguimos estruturar. O debate que se segue à análise atenta promove a capacidade comunicativa e desenvolve a intervenção cívica.

Pensamos que a escola não é apenas um espaço de transmissão de saberes, mas que deve também criar oportunidades para que o conhecimento se construa e que as competências se solidifiquem.  Sendo que, aquilo que cada ser humano é, depende das experiências que realizou ao longo da sua vida e a forma como as vivenciou este projecto propõe-se criar a oportunidade para que as pessoas possam ter um espaço de reflexão e debate de ideias fomentando o exercício da cidadania.

 

CONTEÚDO/DESCRIÇÃO

O que se visa, em concreto, é a criação de um grupo que se responsabiliza pela leitura, análise e apresentação crítica de textos previamente definidos tendo em conta os núcleos geradores e respectivos temas nas Áreas de Competência-Chave Cidadania e Profissionalidade e Cultura Língua Comunicação.  Os adultos, para além de uma apresentação oral,deverão elaborar uma reflexão escrita (tendo em conta o modelo ensaio).

Os participantes do clube encontra-se-ão, semanalmente, pelo menos  durante um bloco de 90 minutos para o desenvolvimento das actividades.

Para além das apresentações feitas pelos adultos, poderão ser organizados debates e palestras, organizadas pelos formadores e/ou adultos.

 

DESTINATÁRIOS DO PROJECTO

Todos aqueles que sintam o prazer de aprofundar e de partilhar os seus conhecimentos.

Especificamente Adultos em Processo RVCC e Adultos dos Cursos EFA (preferencialmente nível secundário), os quais verão a sua participação valorizada através da obtenção de crédito no Núcleo Gerador (e respectivo DR) a que corresponde a sua actuação/reflexão.

TEMAS A DEBATER:

– Liberdade e Democracia;

– Preconceitos e estereótipos numa sociedade do século XXI;

– A importância de uma opinião pública crítica e informada na actualidade;

– Outros temas que a actualidade apresente como prioritários;

– …

LEITURAS PROPOSTAS:[1]

Jean- Paul Sartre, As mãos sujas

–  José Gil,  Em Busca da Identidade – o desnorte

– Alberto Pena, O Que Parece É

– Júlio Magalhães, Os Retornados

– Antoine Exupery, O Principezinho

– Steven Lukes, O Curioso Iluminismo do Professor Caritat

– Outras obras/textos que se considerem pertinentes, de qualidade científica e adequadas ao tema a aprofundar;

–  …

HORÁRIO: à Segunda-feira, das 19 às 20.30 horas (com início previsto a 18 de Janeiro de 2010)

LOCAL: CNO – Francisco de Holanda, Escola Secundária Francisco de Holanda

INSCRIÇÕES: Através das profissionais de RVCC responsáveis pelo grupo a que pertence (ou mediadoras do Curso EFA). Ou manifestar a vontade de fazer parte deste clube através do blogue.

A Formadora de CP

Anabela F. Lopes

 


[1] Não implica a leitura integral da obra.

 

À Procura de Sana de Richard Zimler

 

O livro remete-nos para um mundo actual, pleno de confrontações e de ameaças.

Não é despiciendo que o autor seja judeu, embora, como disse o pseudo pai de Sana, não seja lá muito ortodoxo…

As confrontações actuais entre judeus e palestinianos e, numa segunda fase, entre os talibã e os interesses dos Estados Unidos da América, são o pano de fundo deste romance em que o autor consegue muito habilmente implementar um clima de mistério e, num “crescendo”, conduzir-nos à fatalidade da adesão de Sana aos combatentes islâmicos e mais tarde aos pavorosos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001.

Richard Zimler sabe do que fala mas nem sempre explicita a sua opinião: faz bem pois a um escritor não se pede que seja faccioso. Consegue, por exemplo, colocar-nos na presença de duas comunidades religiosas diferentes, que hoje se combatem, mas que no início do romance conviviam em harmonia: retrata com tintas muito vivas a amizade das duas matriarcas, uma muçulmana e outra judaica, com as filhas a brincarem juntas sob a complacência dos adultos, apesar de se tratar de vizinhas com concepções de vida diferentes.

Que acontecimentos brutais poderiam perturbar essa paz e harmonia?

Todos conhecemos os fumos da história: a implantação do novel estado judaico em território palestiniano, por votação da Assembleia das Nações Unidas em 1948, fez indignar todas as nações muçulmanas mais ou menos vizinhas de Israel. Daí até ao levantamento militar e acções bélicas (sem declarações de guerra…) foi um passinho de pardal.

Temos de admitir que todas as retaliações, venham de onde vierem, são sempre justificadas por quem a comete e condenadas por quem as sofre, seja qual for o campo de onde partem.

Sem dúvida que as decisões tomadas com régua e esquadro, muito ao jeito das antigas nações colonizadoras, não conseguem quase nunca nada de bom. E o que se passou naquela Assembleia das Nações Unidas foi um pouco isso: decidir sem negociar, cortando a direito e decidindo em nome de todos, não podia ter outro resultado.

E o que era um mar de rosas passou rapidamente a um pesadelo: os israelitas, acossados, assumiram atitudes que eles próprios, ainda recentemente, por ocasião das perseguições de que foram vítimas na 2.ª Grande Guerra, reprovavam.

E daí até tudo isso se reflectir na vivência das comunidades foi um pequeno mas custoso passo.

Veja-se o que se passa na prisão onde o infortunado irmão de Sana esteve detido e as barbaridades contra eles cometidas!

É neste caldo de sentimentos contraditórios que Sana há-de viver. E em consequência haverá de cometer muitos erros, umas vezes como retaliação contra Helena, a boa amiga judaica, utilizando a sua identidade para mil e um disfarces, como também, numa fase posterior, não resistindo a filiar-se na “Jihad” talibã e embarcando na aventura das operações suicidas contra o chamado “ Império do Mal”, asserção empregue pelos terroristas, que, mais tarde, tantas vítimas causaria!

É nesta fase que decide vingar-se de uma afronta pessoal praticada contra o seu irmão na prisão (e mais tarde abatido, sem piedade) fazendo rebentar uma bomba onde supostamente se encontrava um dos algozes do irmão. Causando outras vítimas que não o seu alvo, é com certeza arrebatada pela dúvida e pela incerteza vivencial.

Ocorre na mesma altura o encontro dela com o autor do livro, na véspera do seu suicídio: Sana vive em contradição consigo própria e não consegue discernir entre o que está certo e o que está errado. Ela errou já uma vez: estará certo o que se propõe fazer em nome de organizações impiedosas e que a cercam e sufocam?

Abate-se sob um peso insustentável e o que vai acontecer de seguida é um epílogo a que a imaginação do leitor terá de dar resposta: a sua queda daqueles andares é voluntária, terminando assim com uma angústia asfixiante, ou alguém, do seu próprio grupo, a ajudou nesse desígnio?

Prefiro a primeira hipótese, enaltecendo assim uma figura que merece toda a minha simpatia, uma vítima mais do mundo conturbado de onde provém.

José António Ferraz Cardoso

Grupo 11

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